Caso Evandro: 'Uma justiça que demora mais de 30 anos é uma meia-justiça', diz ex-condenado que teve inocência reconhecida

STF mantém decisão do STJ e inocenta ex-condenados do Caso Evandro Depois um processo judicial que durou 34 anos, os acusados pelo assassinato do menino Evand...

Caso Evandro: 'Uma justiça que demora mais de 30 anos é uma meia-justiça', diz ex-condenado que teve inocência reconhecida
Caso Evandro: 'Uma justiça que demora mais de 30 anos é uma meia-justiça', diz ex-condenado que teve inocência reconhecida (Foto: Reprodução)

STF mantém decisão do STJ e inocenta ex-condenados do Caso Evandro Depois um processo judicial que durou 34 anos, os acusados pelo assassinato do menino Evandro Ramos Caetano puderam, pela primeira vez, dormir sabendo que tiveram a inocência comprovada. Para alguns deles, porém, o sentimento é agridoce. O Supremo Tribunal Federal (STF) declarou, nesta terça-feira (31), o trânsito em julgado do Caso Evandro e manteve a decisão que reconheceu a inocência dos quatro ex-condenados pelo assassinato do menino: Osvaldo Marcineiro, Davi dos Santos Soares, Beatriz Abagge e Vicente de Paula Ferreira – falecido em 2011, no presídio. Isso significa que o processo foi encerrado e não cabe mais recurso. "Não posso esquecer a dor, o sofrimento de mais de três décadas. Uma justiça que demora mais de 30 anos é uma meia-justiça", afirma Osvaldo Marcineiro, uma das pessoas acusadas pelo crime. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp Em 1992, Evandro, com seis anos de idade, sumiu no trajeto entre a casa onde morava e a escola, em Guaratuba, no litoral do Paraná. Dias depois, Evandro foi encontrado morto com sinais de violência. Sete pessoas foram acusadas pelo crime e quatro chegaram a ser condenadas. O crime ficou conhecido como "Caso Evandro" ou "As Bruxas de Guaratuba". O verdadeiro assassino nunca foi descoberto. Relembre abaixo. Evandro Ramos Caetano, na época com seis anos, desapareceu no trajeto entre a casa e a escola, em Guaratuba Reprodução/RPC "Foi uma luta de 34 anos. Eu sempre disse: 'Não vou sossegar enquanto não provar a nossa inocência'. Hoje, eu me sinto realmente realizada por ter conseguido, enfim, provar a nossa inocência. A gente realmente conseguiu vencer. Foi um período difícil", afirma Beatriz Abbage, uma das ex-condenadas. O caso passou por uma reviravolta em 2020 após a divulgação de fitas de áudio que indicaram que os réus foram torturados para confessar o assassinato do menino. "A gente não sabia por que estava sendo presa. Depois que eles falaram, durante a tortura, que era pra dizer que a gente matou o menininho. Nunca na minha vida eu senti [aquele] medo, não sei descrever. Era um pavor tão grande, porque minha filha estava em um quarto separado. Eu tinha certeza de que dali a gente ia sair morta", relembra Celina Abbage, que também foi acusada pelo crime. Aos 87 anos, Celina Abbage conta que não conseguiu dormir na noite em que a decisão do STF foi tomada. "Antes tarde do que nunca. Foi muito tarde que comprovamos a nossa inocência. Eu não acreditava que tinha terminado mesmo. Antes, falavam que terminou, recorriam, terminou, recorriam... Essa noite eu não conseguia dormir. Não sei se era desespero, felicidade, não sei te dizer o que eu senti". "Fiquei pensando: que pena que meu marido não está aqui para ver, meu pai... O outro preso [Vicente de Paula Ferreira], que morreu na penitenciária. Fiquei pensando e não conseguia dormir", detalha. Mizanzuk achou fitas que levaram a anulação da condenação dos acusados pelo Caso Evandro Mais vidas impactadas Segundo Beatriz Abagge, não foi só a vida dos acusados que foi transformada pelo processo. O pai dela, Aldo Abagge, prefeito de Guaratuba na época do crime, morreu sem ver o reconhecimento da inocência da filha e da esposa. "Impacto na vida de todos os nossos familiares: filhos, sobrinhos, primos... Era a família Abagge, era a família dos 'bruxos de Guaratuba'", relembra. Neste contexto, a mãe dela, Celina Abagge, conta que a família foi ameaçada de linchamento e, inclusive, os netos dela – que na época eram crianças – sofreram com as consequências da acusação. "Todo mundo tinha medo. Foram tempos de muita tristeza, muita luta, muitas lágrimas, muita dor. Não só nossa, mas da família toda, porque os que estão fora sofrem de outra maneira, são discriminados", lamenta. Enquanto esteve preso, Osvaldo Marcineiro perdeu o pai e a chance de uma despedida. "Perdi, bem dizer, a juventude toda, metade da minha vida, sonhos, planos, tudo foi tirado, foi arrancado. Tem noites ainda que eu acordo com esses gritos das marcas do sofrimento que a gente passou", lamenta. Os três apontam que, apesar do reconhecimento da inocência, as marcas deixadas pelo processo nunca serão apagadas. Celina detalha ainda que os traumas pela tortura que sofreu ainda são presentes e que perdeu tudo depois do processo. "É uma coisa muito pesada. Até hoje eu tenho medo de polícia. Nós perdemos tudo o que tínhamos. Eu não recebo nem a aposentadoria do meu marido. Vivo do aluguel de um barracão. Quando o inquilino saía, a gente ficava sem nada. A família que acudia até para comer", afirma. Às pessoas que julgaram os acusados, Celina diz não guardar rancor. "Tenho muita pena deles, eu não sei ter ódio. Agora, eu quero paz, não quero mais ouvir falar em acusador, nem em Ministério Público", explica. Desaparecimento de Evandro Caso Evandro Reprodução/RPC O menino Evandro desapareceu em 6 de abril de 1992. À época, o Paraná vivia o desaparecimento de diversas crianças na região. Segundo a investigação, ele estava com a mãe, Maria Caetano, funcionária de uma escola municipal de Guaratuba, e disse a ela que iria voltar para casa após perceber que havia esquecido o mini-game. Depois disso, ele nunca mais foi visto. Após um corpo ser encontrado em um matagal, no dia 11 de abril de 1992, o pai de Evandro, Ademir Caetano, afirmou à época no Instituto Médico-Legal (IML) de Paranaguá ter reconhecido o filho, por meio de uma pequena marca de nascença nas costas. Sete pessoas foram acusadas de envolvimento no assassinato de Evandro: Airton Bardelli dos Santos Francisco Sérgio Cristofolini Vicente de Paula Osvaldo Marcineiro Davi dos Santos Soares Celina Abagge Beatriz Abagge Os sete acusados do Caso Evandro Reprodução/Globoplay O caso teve cinco julgamentos. Em 2011, Beatriz Abagge foi condenada a 21 anos de prisão. Celina, mãe dela, não foi julgada por ter mais de 60 anos e o caso contra ela prescreveu. As penas de Osvaldo Marcineiro e Davi dos Santos se extinguiram porque eles haviam permanecido presos por força de decisões anteriores. Vicente de Paula, outro réu, morreu de câncer no presídio. Depois do surgimento de fitas de áudio que comprovaram que os acusados sofreram tortura para confessar o crime, o processo passou por uma revisão criminal, que anulou a decisão do júri e reconheceu a inocência dos condenados. Francisco Sérgio Cristofolini e Airton Bardelli foram absolvidos em 2005. 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