Médica de hospital que atendeu advogada ferida em incêndio no PR diz que chance de sobrevivência em casos semelhantes é de 25%: 'Corpo perde defesa'

Apartamento pega fogo no PR, e vítima se pendura para salvar mãe e criança Juliane Vieira, de 29 anos, advogada que salvou a mãe e o primo de um incêndio n...

Médica de hospital que atendeu advogada ferida em incêndio no PR diz que chance de sobrevivência em casos semelhantes é de 25%: 'Corpo perde defesa'
Médica de hospital que atendeu advogada ferida em incêndio no PR diz que chance de sobrevivência em casos semelhantes é de 25%: 'Corpo perde defesa' (Foto: Reprodução)

Apartamento pega fogo no PR, e vítima se pendura para salvar mãe e criança Juliane Vieira, de 29 anos, advogada que salvou a mãe e o primo de um incêndio no apartamento em que moravam, ficou três meses internada no Hospital Universitário (HU) de Londrina, no norte do Paraná, até receber alta hospitalar nesta terça-feira (20). O local atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e é referência no estado para tratamento de vítimas de queimaduras. Juliane teve 63% do corpo queimado ao se pendurar no ar-condicionado do 13º andar para retirar a família do fogo. Veja no vídeo acima. Nesta quarta-feira (21), o g1 conversou com a superintendente e com a cirurgiã plástica do Centro de Tratamentos de Queimados (CTQ), setor responsável pelo atendimento de Juliane, que explicaram como são os procedimentos feitos em casos de pacientes graves e gravíssimos - como ela foi classificada no início. A equipe do hospital informou que não está autorizada pela família a passar detalhes de como foi o tratamento da advogada. ✅Siga o g1 Londrina e região no WhatsApp Xenia Tavares, médica cirurgiã plástica, conta que um fator decisivo para classificar a gravidade de um quadro é a queimadura de via aérea. Se o paciente inalou fumaça tóxica e teve esses ferimentos, "já coloca ele na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] entubado", afirma a especialista. A esse critério se soma a quantidade e extensão das queimaduras de 3º grau. "Se você tem 10%, 20% de queimadura de terceiro grau é um paciente gravíssimo. Porque a queimadura de 3º grau me tira a oportunidade de regenerar aquela pele com curativos, sem grandes procedimentos cirúrgicos", a médica detalha. A especialista ressalta que pacientes que ficam com mais de 50% do corpo queimado em um acidente têm, em média, 25% de chance de sobreviver. "Quando você queima a pele, você está perdendo defesa", destaca. Navegue nesta reportagem para entender o processo de recuperação de queimados e relembrar o caso de Juliane: Cuidados imediatos em caso de queimados Tratamento de queimaduras de 3º grau O que acontece após a alta hospitalar Estrutura do CTQ do HU Londrina Relembre o caso Quem é Juliane Cuidados imediatos A primeira equipe que recebe o paciente é a do trauma. Ela cuida das vias aéreas da vítima de queimadura e realiza os procedimentos para manter a pressão sanguínea estável. "A prioridade é manter ela respirando e com o sangue circulando, estável hemodinamicamente", Xenia explica. A cirurgiã plástica também alerta que uma preocupação é com uma possível hiportermia – queda da temperatura corporal –, porque a pessoa está sem a barreira da pele. Também é preciso lidar com a desidratação. A partir do momento em que o paciente está estabilizado, a equipe avalia se é necessário realizar uma escarotomia. Esse procedimento faz uma incisão (corte) para aliviar a compressão da pele que "endurece" com a queimadura. Os próximos passos incluem limpeza e avaliação dos ferimentos. Tratamento de queimaduras de 3º grau A médica explicou ao g1 que o termo "3º grau" é comumente utilizado para classificar queimaduras que atingem a espessura total das camadas da pele: epiderme e derme. Ela é o tipo mais grave de queimadura e impede que a recuperação aconteça sem intervenção cirúrgica, porque a pele não é mais capaz de se regenerar sozinha. No HU de Londrina, esse tipo de ferimento é tratado com enxerto e transplante. O enxerto é realizado com a pele saudável do próprio paciente, e o transplante é de doadores. Juliane Vieira, de 28, ficou pendurada em um suporte de ar-condicionado para resgatar mãe e primo durante incêndio. Reprodução A recuperação no CTQ é acompanhada por uma equipe multidisciplinar, que inclui os intensivistas – profissionais da saúde que cuidam da estabilização de um paciente na UTI. "Aquela pele queimada vai diminuir ainda mais a imunidade do paciente. [...] a nossa principal causa de óbito de paciente queimado é a septicemia" [infecção generalizada grave] , a cirurgiã plástica conta. O que acontece após a alta hospitalar? Depois que o paciente está estável, consciente, respirando naturalmente, passou para a enfermaria do CTQ e está apto à alta hospitalar, o tratamento para as queimaduras continua. A médica explica que é um "longo caminho de reabilitação", com possíveis registros de lesões e dores crônicas, coceira e queloide (cicatriz elevada na pele), por exemplo. Os tratamentos incluem procedimentos como cirurgias de sequela e uso de malhas – que pode durar mais de um ano. Estrutura do CTQ do HU Londrina Conforme Iara Aparecida de Oliveira Secco, superintendente do CTQ, são aproximadamente 150 profissionais de diversas especialidades que trabalham no atendimento a pessoas vítimas de queimadura: infectologistas, cirurgiões plásticos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais, etc. Estão disponíveis 16 leitos, no total: seis de UTI e 10 de enfermaria. Em 2025, a unidade realizou 414 internações. Parte desses pacientes permanecem com consultas frequentes nos ambulatórios e também para realização de curativos. "Porque a trajetória de um paciente queimado é muito complexa, exige muita dedicação, muita competência", Iara conclui. Relembre o caso Apartamento pega fogo no PR, e vítima se pendura para salvar mãe e criança O incêndio aconteceu na manhã de 15 de outubro, em um apartamento no 13º andar, no cruzamento das ruas Riachuelo e Londrina, no bairro Country, em Cascavel. Imagens que circularam nas redes sociais mostraram Juliane do lado de fora do prédio, pendurada sobre um suporte de ar-condicionado, tentando resgatar a família (veja no vídeo acima). No apartamento, estavam a mãe dela, Sueli, de 51 anos, e o primo, Pietro, de 4 anos. Após conseguir ajudar os dois, Juliane foi resgatada pelo Corpo de Bombeiros. A mãe dela teve queimaduras no rosto, nas pernas e inalou fumaça. Além disso, teve as vias respiratórias queimadas. Sueli ficou 11 dias internada no Hospital São Lucas, em Cascavel. Pietro foi transferido para o Hospital Universitário Evangélico Mackenzie, em Curitiba, por causa da inalação de fumaça e queimaduras nas pernas e mãos. Ele ficou 16 dias internado e recebeu alta no fim de outubro. Um bombeiro que ajudou no resgate teve queimaduras nos braços, nas mãos e em parte das costas, ele foi internado e teve alta dias depois. Outro teve queimaduras nas mãos e precisou de atendimento médico no dia do incêndio. Leia mais: Como estão as vítimas do incêndio no Paraná em que advogada salvou família Juliane Vieira recebeu alta hospitalar nesta terça-feira (20), depois de três meses. No dia 14 de janeiro foi confirmado que ela estava consciente e respirando naturalmente. Em dezembro de 2025, a mãe de Juliane, Sueli Vieira, informou com exclusividade à RPC, afiliada da TV Globo no Paraná, que a jovem estava acordando aos poucos do coma induzido e consegue se comunicar com familiares. Para apresentar essa melhora, foram quase dois meses de internação no Centro de Tratamento de Queimados, que é referência no estado para atendimento a pacientes com queimaduras. Veja também: 'Te esperando aqui fora', diz amiga de advogada que saiu de coma após arriscar a vida para salvar família em incêndio no PR Em novembro de 2025, a Polícia Civil concluiu a investigação e apontou que o incêndio não foi intencional e não há sinais de crime. Segundo o laudo pericial, as chamas começaram na cozinha do apartamento. Infográfico - Mulher se pendura em ar-condicionado para salvar mãe de incêndio em apartamento no PR Artes/g1 Quem é Juliane Juliane Vieira, de 28, ficou pendurada em um suporte de ar-condicionado para resgatar mãe e primo durante incêndio. Reprodução/Redes Sociais Juliane é advogada e mora em Cascavel. "A Ju sempre foi prática, de resolver as coisas. E o fato de ter salvado a mãe e o primo resume bem quem ela é", afirma Jeferson Espósito, amigo da vítima. O amigo destaca como outra característica marcante de Juliane a capacidade de superar situações difíceis: "Já vi a Ju passar por dias difíceis, daqueles em que a vontade era ficar na cama, sem enxergar sentido no caminho que estava trilhando. Mas era só questão de tempo até ela recalcular a rota". Leia mais: Advogada e crossfiteira: quem é a mulher que se pendurou para fora de prédio para salvar familiares de incêndio no PR Juliane também pratica crossfit. Amigos disseram que ela sempre gostou de fazer publicações nas redes sociais mostrando uma rotina saudável e de exercícios físicos. "Ela gosta de treinar, de sair com os amigos, de estar ao ar livre. Mas também aprecia o silêncio, o seu canto e os momentos com a família", conta o amigo Jeferson Espósito. Em uma publicação, ela aparece durante um treino ao lado do cachorrinho Barthô. O animal também foi resgatado durante o incêndio e não teve ferimentos. Além de ser advogada, Juliane também praticava crossfit. Reprodução VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias no g1 Paraná.